A Corrida que Eu Não Planejei

Durante muito tempo imaginei que este texto seria escrito depois da minha primeira maratona. Pensava em contar como foram os 42 quilômetros, o relógio marcando o tempo final, a medalha no peito e a sensação de ter alcançado um objetivo perseguido durante meses. No entanto, a história tomou outro caminho. Antes que a largada acontecesse, veio a lesão. E, olhando para trás, talvez tenha sido justamente ali que a verdadeira maratona tenha começado.

Hoje entendo que correr nunca foi apenas sobre correr. A corrida acabou se tornando uma forma de compreender coisas que, até então, eu enxergava apenas na teoria: planejamento, adaptação, paciência, limites e recomeços. Este texto nasceu dessa travessia.

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Quem o futebol brasileiro decide legitimar?

Nos últimos dias, a discussão sobre a ausência de jogadores que atuam fora dos grandes centros nas convocações da Seleção Brasileira voltou a ganhar força. E, sinceramente, o pior caminho seria reduzir esse debate apenas a “fulano merecia” ou “fulano não merecia”. A discussão que existe por trás disso parece muito maior do que um nome específico. O ponto central pode ser outro: quais mercados o futebol brasileiro legitima como representantes naturais da excelência nacional?

Durante muito tempo, o futebol brasileiro foi analisado quase exclusivamente pela lógica da performance. Jogar bem deveria bastar. Mas o esporte deixou de funcionar apenas assim. Hoje, ele também opera como um sistema de circulação de capital, atenção, narrativa, construção de marca e legitimação institucional. E é justamente aí que habita um dos desequilíbrios mais profundos do futebol brasileiro atual.

Quando um atleta é convocado para a Seleção Brasileira, o impacto ultrapassa completamente o aspecto esportivo. A convocação gera valorização de mercado, atrai atenção da mídia, fortalece patrocinadores, amplia audiência, movimenta redes sociais, aumenta o reconhecimento nacional e fortalece institucionalmente os clubes envolvidos. Ou seja, a Seleção também funciona, na prática, como um mecanismo de distribuição de legitimidade dentro do ecossistema do futebol brasileiro.

É justamente neste ponto que o sistema começa a se revelar.

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E se a Teoria Baseada em Recursos também explicasse pessoas?

Tenho andado lendo e pesquisando com mais cuidado sobre desenvolvimento baseado em forças, autocrítica e foco no que fazemos melhor. Ao longo dessas leituras, meu cérebro fez uma sinapse que me direcionou para um lugar familiar: a teoria que sustentou a minha tese de doutorado.

A Teoria Baseada em Recursos, desenvolvida por Jay Barney, parte da premissa de que as organizações são heterogêneas por natureza. Elas possuem conjuntos distintos de recursos e capacidades e, justamente por isso, apresentam desempenhos diferentes. A competição não ocorre porque todas tentam corrigir suas fraquezas até se tornarem semelhantes, mas porque exploram aquilo que têm de mais valioso, raro e difícil de imitar. A vantagem emerge do uso estratégico do que já existe, não da negação das diferenças.

Quando trago essa lógica para o plano individual, o paralelo se torna quase inevitável. Pessoas também são heterogêneas. Cada uma carrega combinações únicas de habilidades, repertórios, experiências e formas de interpretar o mundo. Ainda assim, insistimos em um modelo de desenvolvimento centrado na correção de falhas, como se o crescimento viesse principalmente do que nos falta. Os livros que eu leio caminham na direção oposta e todos, de formas diferentes, dialogam com a mesma lógica da Teoria Baseada em Recursos.

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